Dia da consciência negra

Dandara dos palmares e os refugiados

Desenho dee uma mulher preta de turbante com um bambu nas mãos como se estivesse se preparando para uma luta.
Dandara dos Palmares

– Mãe, o que são Flüchtlingen?

– Flüchtlingen?… Ah, refugiados!

– Refugiados? O que é isso?

– Uai, Keca? Primeiro, por que você quer saber disso?

– Porque na escola uma menina me perguntou: “Bist du eine Flüchtlinge?” E eu não sabia o que responder…

– Ah, filha. Então, refugiados. O nome parece já dizer algo, não? Fugir…

– Fugir. De que?

– Os refugiados são pessoas que fogem do local onde moram pois lá tem guerra, ou eles são perseguidos por expor a opinião deles. Em alguns lugares, as pessoas precisam tomar cuidado com o que falam, senão podem ser castigadas. Elas vivem numa ditadura. Então, para se protegerem de uma situação difícil, elas procuram um outro lugar para viver.

– Mas nós também procuramos um outro lugar para viver.

– Só que com a gente é diferente. A gente vivia bem no Brasil, e um dia eu fui convidada para trabalhar aqui na Alemanha. A gente teve liberdade de escolha desde sempre. Os refugiados não têm essa liberdade e pedem para ficar aqui, alguns não são aceitos.

– Ah, sim. Que bom que a gente vem de um país com liberdade. Gostei disso.

– É, mas nem sempre foi assim. No Brasil, por muitos anos, pessoas eram levadas à força lá da África. Homens e mulheres, reis, príncipes, pessoas simples, profissionais liberais… Eles eram roubados da sua terra e viajavam pelo oceano, sofriam muito. Chegavam no Brasil e tinham que trabalhar obrigados. Quem não fizesse tudo direitinho, como os patrões queriam, sofria castigos. Essa é a história dos meus bisavós, seus tataravós Keca. É então minha história e sua história também.

– Mas eles não faziam nada para se defender?

– Muitos faziam sim. Alguns fugiam. Eles procuravam um lugar na floresta e formavam ali aldeias que eles chamavam de Quilombo. Quem morava nos Quilombos eram chamados de quilombolas. O Quilombo mais famoso foi o de Palmares.

– O do Zumbi! Eu tenho no livro, agora eu me lembro.

-Isso, o Zumbi é muito conhecido. Mas você sabia que havia uma menina que saiu ainda criança da fazenda onde os pais foram escravizados e ela foi morar em Palmares?

– Pequena como eu? 

– Talvez sim, talvez menor. Ninguém sabe bem. Os inimigos do Quilombo de Palmares fizeram questão de esconder as informações sobre os heróis pretos do Brasil, mas ela foi provavelmente ainda pequena para lá e se tornou uma guerreira com muita estratégia, além de ter um senso de organização da vila que chegou a abrigar 30 mil pessoas, o que é muita gente! O nome dela era Dandara.

– Que nome lindo!

– Sim, Dandara significa princesa negra ou princesa guerreira. E Dandara foi isso, ela organizava o exército das mulheres de Palmares. Lá as mulheres também lutavam capoeira.

– Então Palmares era um lugar para refugiados pretos que não queria mais trabalhar obrigados e a Dandara era a líder?

– Bem, eles nunca quiseram. Quem quer ter sua liberdade retirada? Ninguém! Não é, Keca? A Dandara era líder e o Zumbi também. Os dois trabalhavam juntos para que a escravidão no Brasil acabasse. Mas demorou muito para que isso acontecesse. Dandara morreu em 1694, jamais voltou a ser escravizada. Mas as pessoas pretas sofreram por muito tempo ainda. Só  ganharam a liberdade apenas em 1888.

– Que triste que ela morreu sem conseguir o que queria. Pois ia ser bom para todo mundo.

– Deixa eu te falar uma coisa, filha: Hoje não temos mais essa escravidão como antes. Mas ainda não temos a liberdade plena. Existe preconceito contra pessoas por causa da cor de pele, aparência física… Não chegamos a um ponto que podemos dizer: “Temos todos igualdade, não somos julgados pela cor de pele ou pela aparência física!” Enquanto a gente não viver a igualdade, não vamos ter também a liberdade total. Por isso precisamos continuar lutando, são lutas diferentes, mas também importantes. Assim, a Dandara pode até ter morrido no corpo… Os heróis de verdade, eles morrem. Mas as ideias de liberdade, justiça e igualdade, essas se mantêm vivas no coração de todos que sonham com um mundo melhor. Elas nunca morrem, Keca. E com elas vivem esses heróis do passado. Dandara vive em mim e eu acho que vive em você também. 

– E nos refugiados também?

– Em todos que buscam pela liberdade para si e para os outros, filha. Mas, por hoje está bom de conversa, vá lá escovar os dentes que tá ficando tarde e você tem que dormir.

– Ah, não, mãe! Quero liberdade de ter que escovar os dentes!

– Se você não escova os dentes, Keca, quem ganha liberdade são as cáries, liberdade para destruir seus dentes.

– Você tem resposta para tudo, mamãe! 

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